25 de dezembro de 2016

outubro, 23

Fotografia: Rhiain Bower

Começou o dia, me enrolei novamente com o lençol que praticamente já se juntou ao que meu corpo é, frágil, forte, caloroso e melancólico. Uma sensação boa se espalhou pelo meio esticado do meu braço, meio que dor, meio que coisa boa, que vem quando a gente se alonga. E, ao me alongar, me desprendi do peso dos meus olhos, e do ar confortável e não desafiador de uma boa noite de sono.
Abri as janelas e uma brisa fria bateu no meu rosto, que flutuou quando meus olhos fecharam tentando captar a mais bela sensação que normalmente uma brisa pode oferecer a alguém. Posso me considerar um bom admirador dessa sensação, eu geralmente busco ela para tirar qualquer peso que aponta no meu peito, ou qualquer pensamento ruim que pode vir qualquer dia, mas naquela manhã era para me sentir mais feliz do que já estava, o mais feliz. E, completando o ritual básico de um bom começo de um bom dia, procurei o perfume que a rosa que você me deu, e que estava na janela em um vaso cor de rosa.
Peguei meus chinelos e fui para a cozinha, sentia o cheiro do café antes mesmo de fazê-lo, o sol entrava por uma janelinha que ficava a cima da mesa e clareava um cacto poético que ficava no centro em cima de uma renda de crochê branco. Uma pintura meio abstrata que ficava em frente à mesa também recebia a luz e criava um ponto de cor sobre todo o ambiente, atraindo todo olhar que havia ali.
Logo depois você apareceu na porta, seu olhar pisciano me dizia que o dia seria maravilhoso porque estaríamos juntos. Nos sentimos felizes porque não tínhamos medo do amor, é uma pena que as pessoas de hoje em dia não amem, apenas sentem medo da solidão, será que elas sabem o que é o amor descascado e livre do que não se pode ser dispensado individualmente? Pensei nisso, observando a sensação, peguei as xícaras, mas não comentei sobre.
Aquela manhã me abraçava, como eu abraçava você, e a cada sorriso dos muitos que eu tinha ao seu lado sempre havia aquela necessidade inexplicável, com cheiro de café, de dizer o quanto eu precisava da sua presença sempre ao meu lado. Saímos, e minha facilidade em desabar parecia bem segura, meu coração estava cheio, eu pulava por dentro, nós brilhávamos mais que o sol, mais que nós mesmos podíamos brilhar.

Tudo parecia um infinito cheiro de café em uma infinita manhã com quem se ama.


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